Separados por um oceano: uma jornada de emigração

De Caracas diretamente para o Porto, Marcelo Dominguez de 22 anos, conta a longa jornada que fez para se adaptar a um país que não era seu, mas que com o tempo passou a chamar de casa. Marcelo não hesita em recordar a melhor memória que tem da Venezuela, estava no casamento da prima com…

De Caracas diretamente para o Porto, Marcelo Dominguez de 22 anos, conta a longa jornada que fez para se adaptar a um país que não era seu, mas que com o tempo passou a chamar de casa.

Marcelo não hesita em recordar a melhor memória que tem da Venezuela, estava no casamento da prima com a família. Três gerações do lado da família paterna festejavam a união romântica e viviam momentos felizes. Marcelo não imaginava que esta seria a última vez em que a família estaria toda reunida.

Da Venezuela guarda memórias felizes, tinha um grupo de amigos para a vida, ambições académicas, praticava basquetebol e sentia-se realizado. No entanto, nem tudo era um cenário feliz. Marcelo recorda a vida arriscada que levava. Sair à noite e conviver com os amigos podiam tornar-se em atividades inseguras. Perder a vida ou ser assaltado eram medos permanentes. “Ninguém podia trabalhar ou estudar descansado. As pessoas eram assaltadas dentro das próprias escolas e faculdades.”

Durante a sua adolescência, o clima de instabilidade política e insegurança aumentavam na Venezuela. “O país vive uma ditadura, não oficial, há pelo menos 10 anos.” A inflação afetava toda a América do Sul e a escassez de bens essenciais era constante. Os ordenados não conseguiam acompanhar o aumento do custo de vida. Marcelo recorda que “às vezes faltavam bens essenciais como Ben-u-Ron para uma simples dor de cabeça ou muscular. O medo constante também alimentava a ideia da emigração.” Apesar das dificuldades o jovem acredita que “os venezuelanos são um povo forte que tenta sempre persistir.” Até que um dia persistir não foi suficiente. Estava na hora de partir.

O recomeço

Por esta altura, emigrar não era apenas uma ideia da mãe de Marcelo, mas uma realidade eminente. Naquele momento qualquer lugar no mundo lhes parecia mais seguro do que o seu país. Portugal era uma possibilidade pela ligação familiar que tinham com o país e pela segurança que oferecia. Este país não era desconhecido de Marcelo que já o havia visitado em 2013, durante umas férias em família. O apoio dos avôs maternos portugueses foi fundamental para se sentirem acolhidos no novo país. Contudo, “emigrar para cá não foi de todo igual a passar férias, porque o turista vem com dinheiro para gastar e o emigrante vem com dinheiro contado.” Marcelo tinha apenas 17 anos, mas apesar da idade, sabia que esta era melhor opção. “Eu já vinha conformado com a ideia de vir para Portugal e sabia o que estava implícito nisso, era aprender a língua, fazer amigos novos e interagir com uma cultura diferente”.

Em agosto de 2016 Marcelo aterra em Portugal. O país que era um destino de férias, passou a ser uma casa permanente. Emigrar em agosto foi uma mais-valia porque facilitou a adaptação ao clima europeu. “A verdade é que o frio europeu afeta sempre o povo sul americano e influencia a qualidade da sua estadia no país em que se encontra.” Uma das principais dificuldades foi a aprendizagem do português que ultrapassou ao matricular-se no 12º ano. Com o apoio dos professores e colegas conseguiu aprender a língua. “O mais difícil ainda é a gramática portuguesa, estou a tentar melhorar aos poucos.”

Integrar-se no sistema de ensino português gerou alguma ansiedade. “Lembro-me de chegar a Portugal, ouvir falar nos exames nacionais e ficar logo assustado, mas fez parte da aprendizagem e estão feitos.” Hoje relembra com orgulho os dez valores que tirou no exame nacional de história A. “Foi um dez que me soube a 25, a minha mãe até chorou quando soube da nota”. Os colegas de turma celebraram a conquista de Marcelo como se fosse sua. No exame nacional de português para estrangeiros conseguiu 15 valores, com menos de um ano a aprender a língua. Interpretar e aprender os conteúdos da escola foi difícil, mas com esforço e determinação esteve à altura do desafio. “Parece cliché, mas foi mesmo assim. Do sacrifício e apoio de quem esteve ao meu lado surgiram bons resultados.”, partilha. As notas dos exames nacionais não foram suficientes para ingressar na licenciatura que ambicionava, mas Marcelo não baixou os braços. Desde que terminou o ensino secundário passou por quatro empregos. Trabalhou como ajudante de serralheiro, fez promoções para supermercados, esteve num call center e, atualmente, trabalha como funcionário de uma padaria.

O ensino superior continuou a ser uma ambição. Em 2018 entrou em Arqueologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. “Fiz arqueologia durante um ano e achei interessante, mas não era o que idealizava e acabei por desistir”, comenta. Quanto ao futuro académico não lhe restam dúvidas, apesar de estar a trabalhar, Marcelo quer continuar a estudar. “O que eu idealmente queria era Ciências da Comunicação, sempre me dei bem a comunicar, mas sou melhor em espanhol. Ainda tenho esperanças de vir a fazer o curso.”

Quando chegou a Portugal, Marcelo estava determinado a integrar uma equipa de basquetebol. O desporto “acabava por ser um escape, ainda que a minha realidade não fosse má, o basquetebol era bom para fazer novos amigos e não pensar tanto no que deixei para trás.” Foi uma das heranças que trouxe do seu país, onde viu muitos jogos com a família. “Na Venezuela via muito basquetebol com o meu pai e fui ganhando a paixão.” Portugal abriu-lhe novas oportunidades na área. Integrou duas equipas de basquetebol e fez um curso de arbitragem pela Federação Portuguesa de Basquetebol. “Em Portugal existe a tradição do futebol, mas o basquetebol está a ganhar muita popularidade.”

As saudades da família que deixou na Venezuela combatem-se com videochamadas diárias. É difícil saber que os familiares que ficaram para trás estão numa situação dura. “Às vezes, durante o dia, dou por mim a pensar em como estará a minha família, se têm medicamentos, se os estudos correm bem.” Marcelo revela que em 2022 planeia fazer uma visita à Venezuela, “Não vejo a minha família há 5 anos e tenho muitas saudades. Tenho lá as minhas raízes e preciso de ir ver como estão as coisas por lá. “

Regressar de vez ao país natal, num futuro próximo, está fora de questão. “A situação da Venezuela está muito má, não vale a pena deixar tudo para trás, a vida que tinha lá já não é igual. Eu amo a Venezuela, mas regressar, para já, não está nos planos.” O balanço que faz dos últimos cinco anos é positivo, “acho que a minha experiência não foi má de todo e tenho muito a agradecer aos meus colegas e amigos que ainda hoje me ensinam muito sobre Portugal.”

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